A lógica superficial da livre concorrência explanada pela teoria liberal pressupõe o seguinte: o consumidor, num cenário de ampla concorrência, é quem automaticamente qualifica a produção/serviço, pois as empresas ruins ficam subordinadas a perderem clientes e consequentemente verem reduzida a taxa de lucro, sob perigo até de irem a falência.

Mercados com ampla concorrência não possuem necessariamente serviços e produtos melhores

Entretanto, não é tão simples assim. Eles ignoram uma intrínseca tendência dessa dinâmica: quanto maior a concorrência, mais fragmentado estará o lucro, consequentemente reduzindo a capacidade de investimento por empresa, salários, benefícios trabalhistas e precarizando o trabalho. Por isso que um operário da indústria ganha mais que um repositor ou operador de caixa atualmente (a concorrência no setor terciário é maior). E trabalhadores em péssimas condições de trabalho, mal remunerados, infelizes e precarizados, prestam um mal serviço, perdem produtividade, eficácia, se alimentam incorretamente e estudam com mais dificuldade, independente da pressão superior, treinamentos e qualificações internas impostos pela necessidade de competitividade.

A título de exemplo podemos citar os funcionários das redes de fast food ou de telemarketing, que mesmo esforçados, prestam um serviço inferior ao dos médicos cubanos ou dos professores da rede pública da Noruega, pois evidentemente, a satisfação é menor. Trabalhadores e trabalhadoras com alta remuneração, estabilidade, carga horária menor, menos pressão, usufruindo de uma qualidade de vida melhor, trabalham mais satisfeitos e felizes, atendendo com mais benevolência e eficiência os clientes e produzindo com mais vigor e precisão, melhorando assim a qualidade do serviço/produto.

Se a concorrência por si só, abstratamente, garantisse a boa prestação de um determinado serviço, não teríamos diversos exemplos de monopólios públicos proporcionando serviços melhores. Não teríamos a USP enquanto melhor universidade do Brasil, tampouco o sistema público de saúde de Cuba superior a diversos planos privados de saúde do Brasil.

Para se ter uma oferta sofisticada e qualificada, além de funcionários atenciosos, produtivos, eficientes e felizes, é indispensável o uso de tecnologia. Nesse sentido, empresas públicas ou cooperativas detendo o monopólio do mercado possuem mais capacidade de investimento, já que a concentração de capital é maior, possibilitando otimizar, informatizar, modernizar e baratear a produção, gestão, distribuição e o atendimento. Não à toa a URSS se tornou a segunda maior potência industrial do mundo em menos de 20 anos, e a China, que controla a maior parte de seu sistema bancário e as empresas de setores estratégicos, é o país que mais investe em robótica no século XXI. [1]

Portanto, não se trata de liberalizar o mercado, mas sim de aumentar a remuneração mínima e média dos trabalhadores, garantir estabilidade, reduzir a jornada de trabalho, diminuir a pressão psicológica que a competição desenfreada exerce sobre cada funcionário, investir em tecnologia e proporcionar serviços públicos de saúde e educação de qualidade.

Algo que exige uma radical mudança no sistema econômico, de modo que a classe trabalhadora tenha a propriedade dos meios de produção e não fique meramente a mercê da lógica da economia de mercado.

Referências:

[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/china-o-pais-que-mais-tera-robos-no-mundo-ate-2017-15267403

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