Na busca por permanente crescimento econômico, mediante aumento da produção e do consumo, o capitalismo produziu uma crise ambiental estruturalmente catastrófica para o planeta e a humanidade. Sem dúvida alguma, o aquecimento global, isto é, a elevação da temperatura do planeta, gerando mudanças climáticas frequentes, produzida por meio de um aumento da emissão de gases-estufa (CO2, CH4, N2O, SF6 e HFCs) na atmosfera, é a base dessa crise. A distribuição da emissão de poluentes se dá da seguinte forma: pela geração de eletricidade não renovável, como a queima de carvão, petróleo e gás natural (24,9%), indústria (14,7%), transportes com combustíveis não-renováveis (14,3%), agricultura (13,8%), mudanças no uso do solo, como o desmatamento (12,2%), outros combustíveis (8,6%), processos industriais (4,3%), produção de lixo (3,2%) e emissões de gases provenientes de equipamentos de pressão (4%). A maior parte desse aquecimento ocorreu nas últimas três décadas. Segundo cientistas da NASA e da NOAA, 2014 foi o ano mais quente do planeta desde 1880. Não por acaso, os 10 anos mais quentes já registrados, com exceção de 1998, ocorreram desde 2000. [1] Os efeitos mais prejudiciais são os listados abaixo:

Ondas de propagação da malária e dengue

Os mosquitos responsáveis pela transmissão da doença proliferam com maior intensidade em ambientes mais quentes. Segundo a OMS(Organização Mundial da Saúde), foram registrados em 2012 cerca de 207 milhões de casos de malária, e estima-se que 627 mil mortes ocorreram. [2] A ONU estima que até 2085, 5 a 6 bilhões de pessoas serão infectadas pelo mosquito (levando em conta o crescimento da população mundial e o ritmo atual da elevação da temperatura na Terra). [3] O Brasil, obviamente, é um dos mais vulneráveis ao avanço da dengue, por suas condições geográficas. Em 2015, foram registrados 745,9 mil casos de dengue no país, um aumento de 234,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 223,2 mil casos da doença. 229 pessoas morreram apenas nesse ano. [4]

Aumento dos períodos de secas

As florestas tropicais possuem grande quantidade de CO2, uma vez queimadas, o gás evapora e é emitido na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global. Dessa forma, ocorre uma diminuição da evaporação da água, reduzindo a formação de nuvens carregadas de água. No Brasil, com o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, o Sudeste, Centro-oeste e Sul estão sofrendo uma seca histórica. [5] Nos últimos 40 anos, o desmatamento na Amazônia somou 762.979 km, o que corresponde a três estados de São Paulo ou a 184 milhões de campos de futebol. [6] Já no Cerrado, segundo um estudo da USP, a devastação aumenta em 20 vezes a perda de água da chuva. [7] Esse desmatamento é inerente a lógica de atuação do agronegócio, que depende de extensões de terra cada vez maiores para maximizar a produção em escala, seja a pecuária ou a agricultura, e por decorrência o lucro. É como uma empresa que precisa ampliar as suas atividades para aumentar os lucros. Sob o “desenvolvimento” econômico baseado na grande propriedade privada agrária, os pequenos camponeses e diversos povos indígenas e quilombolas perdem suas terras (geralmente griladas por ruralistas) ou são afetados pela poluição deixada por mineradoras e carvoarias. [8]

Aumento de enchentes

Com o aumento da temperatura, a água do solo evapora mais rapidamente e intensifica a formação das nuvens carregadas de vapor d’água, elevando a intensidade das chuvas, produzindo tempestades, enchentes, deslizamentos e diversos desastres. [9] Mais uma vez, o Brasil é um grande alvo: entre 1991 e 2010, mais de 10 mil casos foram registrados, e pelo menos 1.780 pessoas morreram nos eventos que ocasionaram os desastres, mas o número de mortes efetivamente causadas por eles chega a 460 mil, se forem incluídas doenças e outros males desencadeados pelas tragédias. [10] O país é o 6º do mundo que mais sofre com desastres naturais. [11]

Degelo

Segundo a Nasa, dos anos 80 pra cá, a camada do gelo ártico ficou 40% mais fina, logo mais vulnerável. [12] Entre 2007 e 2012, 7 milhões de km de extensão de gelo derreteram, um recorde histórico. [13] Com o derretimento, depósitos congelados de metano(gás-estufa) são liberados, ampliando ainda mais o aquecimento global. O nível do mar aumentou quase 20 centímetros no século XX, e o número continua crescendo cada vez mais. Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o nível do mar aumentará 1 metro até 2100. Como muito bem diz o artigo do HypeScience:

“Se o aumento de um metro no nível do mar parece pouco para você, pense assim: aproximadamente 60 milhões de pessoas vivem em uma área que fica a um metro acima do nível do mar, e este número deve crescer para 130 milhões de pessoas até 2100. A maior parte desta população vive em deltas de rios no sul e sudoeste da Ásia. Partes de países como Bangladesh, assim como algumas ilhas inteiras, como as Maldivas, iriam ficar completamente submersas. De acordo com um relatório de 2005, o aumento de um metro no nível do mar deve afetar 13 milhões de pessoas em cinco países europeus, além de causar uma destruição no valor de 600 bilhões de euros (mais de 1 trilhão de reais), sendo que os Países Baixos seriam os mais afetados, devido à sua baixa localização em relação ao nível do mar. Além de todas essas previsões, tempestades destruidoras que acontecem a cada cem anos poderiam começar a acontecer a cada quatro anos, fazendo com que as cidades atingidas fossem abandonadas, em vez de reconstruídas.” [14]

Poluição urbana

A contaminação do ar por resíduos tóxicos oriundos das atividades já mencionadas acima causam graves efeitos a humanidade, sobretudo aos que que vivem em grandes centros urbanos. Diversas doenças são ocasionadas pela poluição do ar, dentre elas derrames e ataques cardíacos, como comprova um estudo da Universidade de Edimburgo:

“O principal causador da poluição de Linfen, na China, é o carvão. A cidade se desenvolveu com um centro de mineração do elemento e nunca mais conseguiu combater os efeitos da poluição emitida pelas indústrias.”

Uma análise de estudos extensa descobriu que a exposição à poluição do ar, mesmo que por apenas um dia, aumenta de forma significativa o risco de derrame. Os pesquisadores reuniram dados de 103 estudos envolvendo 6,2 milhões de internações e óbitos por derrame de 28 países. Publicada no periódico BMJ, a análise descobriu que todas as substâncias poluidoras, com exceção do ozônio, estavam associadas ao aumento do risco de derrame. Além disso, o número de derrames aumentou com o aumento dos níveis de poluição.” [15]

Já um outro estudo do Instituto Max Planck de Química, mostra que a poluição do ar contribui para a proliferação de doenças alérgicas:

“A pesquisa revelou que o ozônio troposférico oxida um aminoácido que desencadeia reações químicas responsáveis por alterar a estrutura das proteínas alergênicas. Já o NO2 modifica a capacidade de ligação de alguns alérgenos. A ação conjunta dos dois gases é responsável por fazer com que os alérgenos provoquem reações no corpo humano com mais facilidade, sobretudo em ambientes úmidos ou poluídos.“ [16]

Doenças respiratórias também estão relacionadas a poluição. “Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) comprova que o acúmulo de partículas e gases nocivos lançados na atmosfera estão provocando doenças respiratórias pré-existentes e podem aumentar o índice de infecções das vias aéreas superiores e pneumonia nos paulistanos, em diferentes faixas etárias. O objetivo do estudo foi avaliar a relação entre a concentração diária dos poluentes atmosféricos emitidos pela frota automotiva na cidade de São Paulo e o número de consultas diárias realizadas no serviço de emergência do Hospital São Paulo, ligado à Unifesp e localizado na Vila Clementino, zona sul da capital. Durante três anos, o levantamento analisou 177.325 casos. A grande maioria (137.530 atendimentos, ou 77,5%) foi por doenças respiratórias. Os dados foram fornecidos pelo Serviço de Arquivo Médico e Estatísticos (Same) da Unifesp, ligado ao Hospital São Paulo. Desse total, 72% das ocorrências eram infecções de vias aéreas superiores (sinusite, faringite, nasofaringites e amidaglite), 12% eram influenza (gripes em geral), 9%, pneumonia e 7%, asma.” [17]

Ao redor do mundo, a poluição do ar mata 7 milhões de pessoas por ano, segundo a OMS. [18] E o Brasil, enquanto integrante do sistema-mundo capitalista, está no mapa da poluição urbana. Apenas nos 2 maiores centros industriais-urbanos, RJ e SP, mais de 135 mil morreram em 6 anos devido a doenças causadas pela poluição do ar, segundo o Instituto Saúde e Sustentabilidade.

“Risco de doenças respiratórias, risco de infarto, as grávidas são muito suscetíveis, as crianças, os idosos. Você tem uma população enorme exposta. Mesmo os saudáveis acabam inalando uma grande quantidade de substancias químicas que são nocivas à saúde”, alerta Hermano Albuquerque de Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. [19]

Produção excessiva de lixo

O consumismo gerado pela necessidade do capitalismo se expandir e do capital se valorizar permanentemente, produziu um excessivo descarte de mercadorias, agravado pela estagnação industrial intensificada após a 3ª revolução industrial. Com taxas decrescentes de lucro, os capitalistas intensificaram a chamada obsolescência programada, que se trata de uma “inovação” artificial, na qual as empresas fragmentam tecnologias em diferentes produtos para aumentar o lucro por unidade, e diminuem a durabilidade de seus produtos, aumentando o ciclo do consumo. Uma pesquisa divulgada pela Abrelpe, referente a 2010, apontou que a produção de lixo no país cresceu seis vezes mais do que a população. E mais: a quantidade de resíduos com destinação inadequada aumentou quase dois milhões de toneladas, em relação a 2009. Foram aproximadamente 61 milhões de toneladas de lixo produzidas apenas durante 12 meses. E o pior: desse total, 23 milhões foram parar em lixões, um aumento de 2 milhões, culminando em contaminação do solo, da água e do ar. SP e RJ chegam a produzir 55 mil e 20 mil toneladas de lixo por dia respectivamente. [20] Em 11 anos, a produção de lixo no Brasil aumentou 29%, o maior aumento da história, e desse total 41% tem como destino os lixões. Quase 40% da população brasileira (78 milhões) não tem acesso a serviços de tratamento adequado de resíduos sólidos. [21]

Chuvas ácidas

Resultado do aumento da emissão de gases-estufa na atmosfera, as chuvas ácidas são chuvas com alta concentração de poluentes que contém ácidos fortes. Para a chefe do Instituto Nacional de Meteorologia no Amazonas, Lúcia Gularte, as chuvas ácidas causam a “mortandade de peixes, insetos, anfíbios e plânctons devido a falta de oxigênio na água. As chuvas causam também efeitos negativos sobre a saúde humana, além de corrosão em equipamentos expostos ao ar, como estruturas metálicas, edifícios e carros”. [22]

Estudos revistos pela Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental) dos Estados Unidos demonstraram que as chuvas ácidas causaram diretamente a acidificação de 75% dos lagos e de cerca de 50% dos rios e ribeiros estudados. [23] Ainda segundo a mesma agência, há relação entre as chuvas ácidas e as contaminações por diarreia de crianças nos EUA devido a poluição na água. E também o aumento das ocorrências de Alzheimer. [24]

Diminuição da camada de ozônio

A camada de ozônio é uma camada com grande concentração de ozônio que se encontra na atmosfera terrestre, sendo responsável pela filtração de 95% dos raios ultravioletas emitidos pelo Sol. Ela basicamente evita que tenhamos uma generalizada propagação de câncer de pele e problemas relacionados a visão, além de garantir que as plantas realizem a fotossíntese e emitam oxigênio para o planeta. Entre 1975 e 1984, foi descoberto por cientistas um “buraco” na camada de ozônio, uma diminuição na espessura em cerca de 40%. Em 2006, foi registrado o recorde da extensão do “buraco”, aproximadamente 29,5 milhões de km. [25]

Estamos vivenciando uma verdadeira catástrofe ambiental

Como podemos perceber, vivemos uma crise ambiental de magnitude global, em decorrência do modo de produção capitalista e a sua inerente necessidade de manter altos níveis de consumo para se expandir. Nesse cenário, o Brasil sofre duplamente por estar inserido no sistema global capitalista, e ser vulnerável enquanto país subdesenvolvido, não conseguindo sequer amenizar alguns efeitos.

Segundo James Lovelock, cientista que prevê 6 bilhões de mortes até o fim do século devido a crise ambiental, criador do aparelho que ajudou a detectar o buraco na camada de ozônio e formulador da teoria “Gaia”, que classifica o planeta como um “organismo vivo”, que se modifica permanentemente (base para toda a ciência climática), mas que funciona apenas num ambiente específico, nos diz claramente o significado da necessidade de destruir o capitalismo:

“Se nós, as pessoas, não respeitarmos a Terra e não tomarmos conta dela, podemos ter certeza de que ela, no papel de Gaia, vai tomar conta de nós e, se necessário for, vai nos eliminar”. [26]

Referências:

[1] http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/blog-do-clima/2015/01/16/nasa-e-noaa-confirmam-que-2014-foi-o-ano-mais-quente-veja-video/

[2] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140307_malaria_aquecimento_novas_areas_fn

[3] http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/blog-do-clima/2015/01/27/aquecimento-global-aumenta-proliferacao-de-mosquitos/

[4] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-05/casos-de-dengue-no-pais-aumentam-234-e-chegam-7459-mil

[5] http://gazetaweb.globo.com/noticia.php?c=376797&e=17

[6] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-10/amazonia-acumula-762-mil-km2-de-desmatamento-em-40-anos-diz-estudo

[7] http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/02/desmatamento-aumenta-em-20-vezes-perda-de-agua-da-chuva-aponta-usp.html

[8] http://reporterbrasil.org.br/2006/07/desmatamento-e-poluicao-seguem-o-rastro-do-agronegocio

[9] http://www.universitario.com.br/noticias/n.php?i=10939 (Cientistas confirmam que aquecimento global intensifica enchentes)

[10] http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-03-19/em-20-anos-secas-e-enchentes-afetaram-86-milhoes-de-brasileiros

[11] http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/REPORTAGEM-ESPECIAL/436569-ENCHENTES—-O-BRASIL-E-6-PAIS-DO-MUNDO-QUE-MAIS-SOFRE-COM-CATASTROFES-CLIMATICAS-BLOCO-1.html

[12] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/08/120827_artico_ac.shtml (Cientistas alertam para consequências de degelo recorde no Ártico)

[13] http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI317326-17770,00-GELO+ARTICO+SOFRE+DEGELO+RECORDE.html

[14] http://hypescience.com/aumento-do-nivel-do-mar-e-mais-perigoso-que-se-acreditava/

[15] http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/the-new-york-times/2015/04/06/poluicao-do-ar-aumenta-risco-de-derrame.htm

[16] http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/estudo-revela-por-que-poluicao-aumenta-numero-de-alergicos-15672054

[17] http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,poluicao-do-ar-piora-doenca-respiratoria-e-aumenta-infeccao-diz-unifesp,630692

[18] http://noticias.terra.com.br/ciencia/poluicao-do-ar-mata-7-milhoes-de-pessoas-por-ano-diz-oms,1ba6b5102afe4410VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

[19] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/10/estudo-revela-impacto-da-poluicao-na-saude-de-moradores-do-rj-e-de-sp.html

[20] http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/lixo/producao-destinacao-residuos-solidos-brasil-panorama-2010-abrelpe-625938.shtml

[21] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-07/producao-de-lixo-no-pais-cresce-29-em-11-anos-mostra-pesquisa-da-abrelpe

[22] http://www.portalamazonia.com.br/editoria/amazonia/queimadas-na-amazonia-aumentam-frequencia-de-chuvas-acidas-na-regiao/

[23] http://www.epa.gov/acidrain/effects/surface_water.html

[24] http://www.epa.gov/acidrain/effects/health.html

[25] http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/buraco-da-camada-de-ozonio-atinge-extensao-recorde-4557400

[26] http://www.rollingstone.uol.com.br/edicao/14/aquecimento-global-e-inevitavel-e-6-bi-morrerao-diz-cientista#imagem0

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