A força de trabalho, como o conjunto das capacidades físicas e intelectuais, que o homem emprega no processo da produção dos bens materiais, é um elemento necessário para a produção em qualquer forma de sociedade. Entretanto, somente sob o capitalismo a força de trabalho transforma-se em mercadoria.

O capitalismo é a produção mercantil no seu mais alto estado de desenvolvimento, quando também a força de trabalho torna-se mercadoria. Com a transformação da força de trabalho em mercadoria, a produção mercantil assume um caráter universal. A principal característica da produção capitalista é a exploração do trabalho assalariado, e a contratação do operário pelo capitalista não é senão a compra e venda da mercadoria força de trabalho: o operário vende sua força de trabalho e o capitalista compra-a.

Assim como tudo no capitalismo, a força de trabalho também se transforma em mercadoria

Contratando o operário, o capitalista recebe por determinado prazo sua força de trabalho e dela dispõe plenamente. O capitalista aplica esta força de trabalho no processo de produção, no qual se opera o crescimento do capital.

Do mesmo modo que qualquer outra mercadoria, a força de trabalho é vendida por determinado preço, à base do qual está o seu valor. Mas qual é esse valor?

Para que o operário se mantenha capaz de trabalhar, ele necessita satisfazer suas necessidades de alimentação, roupa, calçado, habitação, etc. A satisfação dessas exigências vitalmente necessárias significa a reposição da energia vital que ele despendeu – muscular, nervosa, cerebral – , ou seja, o restabelecimento de sua capacidade de trabalho. Além disso, porém, o capital necessita de uma torrente ininterrupta de subsistir, ele próprio, como de manter sua família. Isto garante a reprodução, isto é, a permanente renovação da força de trabalho.

Por fim, o capital necessita não apenas de trabalhadores sem qualificação, mas também dos operários qualificados, que saibam lidar com máquinas complexas, e esta qualificação requer determinados gastos de trabalho para a instrução. Por isto, os gastos com a produção e a reprodução da força de trabalho incluem também certo mínimo de dispêndios para a instrução das novas gerações da classe operária.

De tudo isto decorre que o valor da força de trabalho como mercadoria é igual ao valor dos meios de existência necessários à manutenção do operário e de sua família.

“O valor da força de trabalho, como o de qualquer outra mercadoria, é determinado pelo tempo de trabalho necessário à sua produção e, consequentemente, também à reprodução deste objeto especial de comércio.” [1]

No processo de desenvolvimento histórico da sociedade, modificam-se tanto o nível das necessidades habituais do operário, como os meios de satisfação destas necessidades. Em diferentes países, o nível das necessidades habituais do operário não é o mesmo. As particularidades do caminho histórico percorrido por um determinado país e as condições em que se tenha formado a classe dos operários assalariados determinam em grande medida e o caráter de suas necessidades. As condições climáticas e outras condições naturais também exercem certa influencia sobre o consumo do operário em alimentos, roupa e habitação. Na composição do valor da força de trabalho não entram apenas o valor dos objetos de consumo necessário ao restabelecimento das forças físicas do homem, mas também as despesas para a satisfação de determinadas necessidades culturais do operário e de sua família, necessidades que decorrem das condições sociais em que vivem e são educados os operários (instrução das crianças, compra de jornais, livros, cinema, teatro, etc).

Os capitalistas, onde quer que seja, empenham-se em restringir as condições materiais e culturais de vida da classe operária ao mais baixo nível, ao mesmo tempo em que os operários oferecem resistência a estas tentativas dos empresários e travam uma luta tenaz pela elevação do seu nível de vida.

Pondo mãos à obra, o capitalista compra tudo o que é necessário à produção: instalações, máquinas, equipamentos, matérias-primas, combustíveis. Em seguida, ele contrata os operários e tem início na empresa o processo de produção. Quando a mercadoria está fabricada, o capitalismo vende-a. O valor de uma mercadoria pronta inclui: em primeiro lugar, o valor dos meios de produção que foram gastos – matérias-primas reelaboradas, combustível utilizado, determinada parte do valor das instalações, máquinas e equipamentos; em segundo lugar, o novo valor criado pelo trabalho dos operários daquela empresa. Então, que representa esse novo valor?

O modo de produção capitalista pressupõe um nível relativamente alto da produtividade do trabalho, no qual, para criar um valor igual ao valor de sua força de trabalho, o operário não precisa mais do que uma parte da jornada de trabalho. Suponhamos que uma hora de trabalho simples médio crie um valor igual a $1 (um dólar) e que o valor diário da força de trabalho seja igual a $4 (quatro dólares). Nesse caso, para repor o valor diário de sua força de trabalho o operário deve trabalhar durante 4 horas. Ora, o capitalista comprou a força de trabalho para todo o dia e obriga o proletário a trabalhar não apenas 4 horas e sim durante todo o dia de trabalho, que é, admitamos, de 8 horas. Nessas 8 horas, o operário cria um valor igual a 8 dólares, ao passo que o valor de sua força de trabalho é de 4 dólares.

Vemos, agora, em que consiste o valor de uso específico da mercadoria força de trabalho para o comprador desta mercadoria – o capitalista. Comprando a força de trabalho, o capitalista coloca à sua disposição a capacidade do operário para o trabalho. O capitalista utiliza a força de trabalho por ele comprada no processo de trabalho, que é, ao mesmo tempo, o processo de criação do valor. Portanto, o valor de uso da mercadoria força de trabalho é a sua propriedade de ser fonte de valor, e de um valor maior do que aquele que ela própria possui.

Referência:

[1] Marx, O capital, t.I, 1955, p.177

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