É necessário compreender a crise econômica global, o esgotamento do capitalismo, que engendra a crise política e a instabilidade institucional que começou a vigorar sobretudo a partir de 2015 no Brasil, pois ao contrário do que muitas pessoas pensam, a crise econômica gera a crise política e institucional, não o oposto. E nesse sentido, é preciso entender que para solucionar um problema é fundamentalmente necessário estudar e assimilar a natureza dele, motivo principal pelo qual tanto a esquerda reformista, quanto os keynesianos, desenvolvimentistas e liberais, não conseguem e não conseguirão resolver a crise econômica, pois não entendem a origem dela.

Ascensão do Lulismo

Dentro da conjuntura econômica global da última década, é indispensável entender o que foi o lulismo, a chegada do PT à gerência do Estado burguês, que basicamente se baseou num projeto de conciliação de classes com interesses antagônicos, bastante conflituosos, que em outrora protagonizavam uma luta de classes acirrada. Um exemplo concreto é a base social de apoio ao governo Lula ter inserido o agronegócio e o MST, setores historicamente inimigos de classe. Claro, com o agronegócio sendo muito mais beneficiado, recebendo 200 bilhões de crédito do BNDES, enquanto a agricultura familiar recebia 2 bilhões por ano. Ou seja, a manutenção dos privilégios e superlucros da grande burguesia e políticas compensatórias para os trabalhadores e mais pobres. Não obstante, essa conciliação de classes só foi possível num momento específico do cenário econômico internacional, que foi o supercrescimento da China, grande consumidor de bens primários, durante toda a última década, de 2000 a 2009. O PIB da China cresceu 5% em 2000 e triplicou em 2008, chegando a 15%. Nesse contexto, evidentemente o agronegócio, cuja cadeia produtiva representa 25% do PIB nacional e cerca de 50% do total de exportações, foi essencialmente beneficiado, sendo bastante perceptível a influência direta do crescimento chinês e consequente aumento da demanda por bens primários no crescimento econômico brasileiro, possibilitando o subsídio de vários programas sociais, e também obviamente, sendo diretamente responsável pela retração de 7% nos últimos 2 anos. Entretanto, esse cenário começa a mudar a partir de 2011, com a permanente estagnação da Europa, principal mercado de exportação da China, que viu a sua economia desacelerar gradativamente, caindo pela metade já em 2015, no que ficou conhecido como a “terceira onda da crise” no ambiente das ciências econômicas.

Impeachment: um golpe branco da burguesia contra os trabalhadores

As políticas “anti-cíclicas” ditas keynesianas do primeiro mandato de Dilma, que dá continuidade a uma perceptível tendência anti-cíclica de Lula, sob a qual se destaca a criação do Minha Casa Minha Vida, em 2009, objetivando estimular a cadeia produtiva da construção civil e gerar liquidez para bancos e empreiteiras, não fizeram mais do que adiar o desemprego estrutural em curso sob a crise do capitalismo. Medidas como isenção e desonerações fiscais, taxas de juros “especiais” para alguns setores econômicos e crédito abundante do BNDES mantiveram a economia razoavelmente aquecida por algum tempo, mas por outro lado, desequilibraram as contas públicas, diminuíram a arrecadação e não se fizeram suficientes para manter a taxa de lucro dos capitalistas, já que a crise em sua totalidade se trata de um problema estrutural, da própria dinâmica histórica e dialética do modo de produção capitalista, e não de mera gestão do mesmo, como pensam não apenas Dilma e Lula, mas também a esquerda reformista, os liberais, keynesianos e os neodesenvolvimentistas.

Já em seu segundo mandato, eleita de forma apertada em decorrência da visível estagnação econômica nacional em 2014 e, sob uma “necessidade” orçamentária de reduzir o déficit público (cerca de 100 e 170 bilhões em 2015 e 2016 respectivamente), Dilma deixa o seu caráter desenvolvimentista de lado e adere à medidas de austeridade, escolhendo Joaquim Levy como ministro da Fazenda, aumentando impostos e tarifas, elevando a taxa de juros para controlar a inflação e atrair investimentos através da alta rentabilidade dos títulos públicos, flexibilizando direitos trabalhistas e cogitando fazer reformas impopulares, como a trabalhista e previdenciária. Entretanto, sua base social, organizada em movimentos sociais e grande responsável por sua reeleição, a pressiona para manter algumas políticas sociais e reverter a política econômica,  principalmente com a pauta do “Fora Levy”.

Economia brasileira encontra-se em recessão desde 2015

Chega ao fim então o projeto de conciliação de classes petista, e da própria necessidade do PT na gerência do Estado burguês. A burguesia é clara e direta: é o momento de cortar o máximo possível de gastos sociais e trabalhistas, enxergando em Dilma e no PT uma incapacidade para tal, dada a base social que os apoia. Não por acaso todas as entidades patronais, até mesmo históricas apoiadoras do lulismo, como o agronegócio e banqueiros, se lançam numa campanha pelo impeachment, vendo no programa de Temer e sua equipe uma maior rigidez em relação às medidas de austeridade. O congresso, em sua maioria formado por capachos dos grandes capitalistas e partidos fisiológicos e oportunistas, como o PMDB, não hesita em aprovar o impeachment. Dilma e Lula, sem entender absolutamente nada do que aconteceu, se esforçam em construir discursos e textos reivindicando um novo ciclo de conciliação e “unidade”, quando o momento econômico clama pela luta de classes.

Crise estrutural do capitalismo e alternativas insuficientes

A saúde orçamentária do Estado brasileiro está destruída, dado o nível de estagnação global e por conseguinte nacional, portanto precisamos reorganizar a atividade econômica sob uma outra perspectiva de funcionamento. Não há alternativa para o mundo e o Brasil dentro do capitalismo, por isso é urgente organizar todas as forças revolucionárias para a transformação da ordem social vigente. De um lado, temos os economistas burgueses vendo na austeridade a forma de enxugar os gastos públicos e produzir maiores superávits primários para atrair mais investimentos do capital financeiro, sem se preocupar com a queda da atividade econômica e consequentemente da demanda e arrecadação de impostos, o que gera novos déficits anuais cada vez maiores e um superendividamento cujo único fim é a depressão econômica e a quebra das finanças do Estado. Sem contar a conjuntura vigente de aumento exponencial do desemprego, em decorrência das tecnologias emergentes e da inviabilidade de realocação da força de trabalho em novos setores relacionados a TI.

De outro lado, temos a esquerda reformista e o neodesenvolvimentismo anacrônico, também sem compreender a natureza da crise e agindo sobre os efeitos, demonizando exclusivamente o “capital financeiro” e ignorando as contradições tecnológicas que levaram os investidores a migrarem o seu capital para o mercado financeiro. Para eles, basta eliminar a austeridade para magicamente a economia voltar a crescer, enfatizando a reforma tributária progressiva como principal propulsora para tal. Trata-se de um equívoco, já que isso em nada afetaria as exportações brasileiras, a dependência orçamentária do capital financeiro (endividamento de 70%  e com tendência de rápido crescimento), a sustentação que a alta taxa de juros do Brasil possui sobre a aquisição de novos investimentos que cobrem os rombos fiscais e o desemprego tecnológico exponencial em curso, que por natureza deprime a economia capitalista.

A nível internacional, os países desenvolvidos estão utilizando diversas tentativas de combater a crise econômica, dentre as principais, medidas keynesianas como injetar dinheiro na economia através do Banco Central, que compra diversos títulos financeiros ou empresta dinheiro a juros próximos de zero, reduz a taxa de depósito, tornando-as negativas em muitos casos, como a do BCE e do BC do Japão, tentando empurrar o dinheiro que os bancos depositam nos BCs para o consumo, na falha tentativa de reanimar a demanda. Apenas os EUA gastaram 4 trilhões numa corrida desesperada para tentar reativar a economia e gerar um novo ciclo de expansão, sem sucesso. Alguns países tentaram políticas de austeridade, como Japão, Portugal, Grécia, Espanha, enfim, nada deu certo. A economia global continua estagnada, pois a capacidade de produção é muito grande em comparação com a capacidade de consumo existente, tanto da população, já bastante endividada, quanto dos Estados superendividados, com dívidas que superam 100% na Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Japão, EUA, entre diversos outros e também das empresas, ou seja, um endividamento recorde, uma dívida mundial de 200 trilhões de dólares. Essa contradição entre superprodutividade e baixa demanda é tão grande, que nem estímulos trilionários dos BCs tem surtido efeito. É como se você estivesse com o seu salário estagnado há anos e ao mesmo tempo se endividando cada vez mais. Isso obviamente é insustentável e uma hora acaba estourando. Por isso que só a edificação de um novo modelo econômico poderá reativar a economia; em suma, a construção do socialismo.

A necessidade do socialismo

No Brasil, a ociosidade é recorde na indústria de caminhões, chegando a incríveis 80%, sendo 52% na indústria automotiva em geral. Por hora, 282 pessoas ficam desempregadas, totalizando 6.768 por dia e 203.040 por mês. Não são apenas trabalhadores, mas também consumidores a menos no mercado, reduzindo a demanda (223 milhões de reais a menos por mês) e afetando ininterruptamente outros setores, elevando a tendência de crescimento do desemprego. Além disso, a nova revolução industrial emergente eliminará cada vez mais postos de trabalho, como já vem ocorrendo desde o início do século.  E a maioria da população não conseguirá se qualificar para as vagas de TI que restarão. Diante desse cenário, algumas medidas são fundamentais de imediato: expropriação de todas as fábricas falidas e ociosas sob controle dos trabalhadores; revolução agrária para assentar os trabalhadores sem terra e formar grandes cooperativas agrárias; estatização do sistema bancário; taxa de juros a um patamar de no máximo 4%; redução da carga horária para no máximo 4 horas por dia; salário mínimo compatível com o DIEESE. Num segundo momento, com o controle coletivo dos meios de produção e do sistema bancário, a nova revolução industrial deverá ser racional e gradualmente implementada. Os transportes se tornarão autônomos, movidos a energia solar ou elétrica, a robótica será popularizada, com robôs assistentes residenciais que podem ser usados como médicos que, a partir dos sintomas informados pelos pacientes, fornecem os remédios e cuidados a serem tomados e informam hospitais automatizados quando houver a necessidade de tratamento de maior complexidade. Um exemplo é o robô Zenbo, que já atua como assistente pessoal, informando a pessoas próximas do usuário quando este passa mal; isso desafogaria a superlotação dos hospitais. Pode-se automatizar todo o atendimento de lojas e supermercados, digitalizando o máximo possível as relações comerciais. Na educação, as redes mesh podem garantir a real democratização do acesso à internet, e por conseguinte a criação de escolas e universidades virtuais (com distribuição gratuita de óculos imbuídos de realidade virtual para facilitar a assimilação do conteúdo), que qualifiquem os operários, camponeses e demais trabalhadores para as novas profissões na área de TI, preparando-os para a automação total da produção de modo que não sejam desempregados. A construção civil pode ser automatizada através da fabricação aditiva (1 impressora 3D produz 10 casas por dia na China). E posteriormente, com o avanço e amadurecimento da inteligência artificial, nanomedicina e fabricação aditiva, podemos automatizar completamente o trabalho, manual e intelectual, curar a maioria das doenças e enfim construir uma nova civilização, onde a felicidade e a liberdade de viver sejam a base de seu funcionamento!

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