Mas por que os governos são tão generosos com os bancos e os monopólios capitalistas? Não é um princípio do capitalismo dizer que o Estado deve interferir o menos possível na atividade econômica e deixar que o mercado funcione livremente? Primeiro, porque os governos burgueses têm como principal objetivo defender o capital e os capitalistas e tudo fazer para manter o capitalismo existindo. Assim, independentemente daquele que ocupa o governo, Bush ou Trump, Jacques Chirac ou François Hollande e de suas diferenças de personalidade ou origem de classe, o objetivo dos governos é trabalhar pela manutenção do capitalismo e evitar que esse regime que tanta infelicidade causa e que provoca tantos males seja banido da face da terra.

JPMorgan, um dos principais bancos dos EUA

Segundo, porque na esfera financeira se encontram não apenas os banqueiros, mas industriais, comerciantes, governos, enfim, toda a classe capitalista. De fato, devido ao papel que os bancos cumprem no sistema capitalista quando um banco está em falência, junto a ele estão também numerosos membros das classes dominantes. Portanto, a falência de um grande banco levam de roldão muitos outros capitalistas – e até Estados. Ademais, até o século XIX, a função dos bancos na economia capitalista era simplesmente a de intermediários. Reuniam o capital (dinheiro) sem atividade e o colocavam à disposição dos capitalistas desejosos de investir nas fábricas, na agricultura e no comércio.

A partir do século XX, porém, o capitalismo ingressou em sua fase final caracterizada pela dominação na economia do capital financeiro e dos monopólios e pela tendência ao parasitismo e à decomposição, como explica Lênin em sua obra ‘Imperialismo, fase superior do capitalismo’:

“À medida que os lucros aumentam e os bancos se concentram num pequeno número de estabelecimentos, estes deixam de ser modestos intermediários para se tornarem monopólios todo-poderosos, dispondo da quase totalidade do capital-dinheiro do conjunto dos capitalistas e dos pequenos empresários, assim como da maior parte dos meios de produção e das fontes de matérias-primas de um dado país ou de toda uma série de países. Esta transformação de uma massa de modestos intermediários num punhado de monopolistas constitui um dos processos essenciais da transformação do capitalismo em imperialismo capitalista(…) No que diz respeito à íntima ligação existente entre os bancos e a indústria é, talvez neste domínio, que se manifesta com maior evidência o novo papel dos bancos(…) desenvolve-se, por assim dizer, a união pessoal dos bancos e das grandes empresas industriais e comerciais, a fusão de uns com outros, pela compra de ações, pela entrada dos diretores dos bancos nos conselhos fiscais (ou de administração) das empresas industriais e comerciais e vice-versa”

Dito de outro modo, os bancos deixam de ser simples intermediários e passam a controlar grandes indústrias. Estas, por sua vez, também passam a possuir bancos.

Em resumo, uma grande parte do capital não pertence aos industriais que dele dispõem. Ocorre a fusão do capital bancário com o capital industrial e o surgimento do poderoso capital financeiro. Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citigroup são, por exemplo, proprietários de grandes companhias de gás natural e de energia elétrica nos EUA. Também, muitas indústrias são donas de bancos. O Fundo Berkshire Hathaway, controlado pelo especulador Warren Buffett e que teve queda de 62% no seu lucro no ano passado, tem ações em empresas como Coca-Cola, U.S Bancorp, Wells Fargo e Moody´s Corp. A General Eletric (GE) adquiriu, em 1996, 44 instituições financeiras; a GM é dona do banco Gmac; o grupo Votorantim é dono do banco de mesmo nome e o Bradesco detém 21% das ações da Vale do Rio Doce. Além de ter em suas mãos o controle do capital e dos meios de produção, o capital financeiro é também dono do atual Estado. Até porque, como sabemos, nenhum sistema econômico baseado na divisão da sociedade em classes sobrevive sem um Estado que o proteja e o defenda da revolta das classes oprimidas.

Prova disso são os pacotes de socorro aos bancos e aos monopólios adotados por todos os governos capitalistas, bem como a política econômica desses governos que garante ganhos cada vez maiores ao capital financeiro. A Organização Mundial do Comércio (OMC), organização que congrega representantes de 153 países e que tem por objetivo regular o comércio entre as nações, aprovou, em 1999, a eliminação de todas as barreiras no setor bancário visando assegurar ao capital financeiro (bancos, fundos de investimentos, corretoras e monopólios) ampla circulação e ação no mercado mundial. Com essa decisão, qualquer país, para ingressar na OMC, deve concordar em abrir seu sistema financeiro para livre ação (e dominação) do capital financeiro internacional. Na verdade, na etapa superior do capitalismo, no imperialismo capitalista, os bancos constituem o coração do sistema capitalista ou, nas palavras de Lênin, “os centros nervosos de todo o sistema capitalista.” (Sobre a Nacionalização dos bancos. V.I. Lênin. Seara Nova). Até mesmo Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, reconheceu essas “intrincadas relações” do capital financeiro com a economia capitalista:

“A inadimplência de grandes instituições pode desmantelar o sistema financeiro e, com ele, o resto da economia, devido às múltiplas e intrincadas relações entre a finança e a atividade econômica.” (Wall Street Journal, 19/06/2009).

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