Exploração do trabalho: a única coisa que existe em comum em todas as mercadorias é o trabalho. O trabalho particular (concreto), isto é, os diferentes tipos de função (pedreiro, operador de máquinas, eletricista, cozinheiro, entre outros), e o trabalho abstrato, ou seja, a noção de trabalho em si (a utilização das capacidades físicas e mentais humanas no processo de produção de bens e serviços). É o tempo de trabalho abstrato socialmente necessário que gera valor aos produtos que consumimos, nada além disso. Por quê não pagamos pelo ar que respiramos? Porque não há trabalho na produção deste recurso. Quanto maior o tempo de trabalho socialmente necessário, maior o valor de tudo. Por isso uma casa custa mais do que uma caneta. Nesse sentido, se o trabalho é a fonte que gera um preço na produção de tudo, de onde sai o lucro do empresário? Ora, de um pedaço do tempo de trabalho dos trabalhadores.

Se um conjunto de 20 trabalhadores produziram uma casa em 1 ano, recebendo 240 mil reais no total em salário (cada um recebeu 1 mil reais por mês de trabalho) e esta casa é vendida por 300 mil, este valor adicional (que Marx chamou de mais-valia; que significa ‘mais-valor’, um valor a mais), mais conhecido como lucro, não pode ter saído de outro lugar senão da exploração do trabalho dos 20 trabalhadores. Na prática, os trabalhadores trabalharam 9 meses para produzir e receber os 240 mil e mais 3 meses gratuitamente para produzir os 60 mil de lucro do empresário. O lucro, neste caso, trata-se de um roubo legalizado. Para essa lógica funcionar, evidentemente que é necessário concentrar todos os instrumentos de trabalho e o dinheiro nas mãos de poucos e retirar absolutamente tudo das mãos da maioria, obrigando, mediante a necessidade de sobreviver, os despossuídos a trabalhar para os detentores do capital.

O capitalismo, através de suas contradições, pode levar a humanidade para a barbárie

Luta de classes: como visto, no processo de produção sob o sistema capitalista, os empresários obtém o seu lucro através da exploração do trabalho dos trabalhadores. Mas não só isso, o lucro entra em contradição com o salário. Na medida em que o salário diminui, o lucro aumenta e vice-versa. Se os 20 trabalhadores citados acima recebessem 500 reais por mês de trabalho ao invés de 1000, o lucro do empresário poderia passar de 60 para 180 mil. Inversamente, se o lucro fosse de 20 e não de 60 mil, o salário pago total aos trabalhadores poderia ser 280, não 240 mil. Portanto, há um conflito de interesses econômicos opostos configurado. E mais que isso, um único empresário não detém o controle integral da maior parte dos ramos de produção. Não apenas uma empreiteira atua na construção de casas, mas sim várias. Isso significa que há uma concorrência dentro da própria classe empresarial, que impulsiona cada empresário a aumentar a produtividade do trabalho e reduzir custos para conseguir vender mais. E quais são estes custos mesmo? O trabalho socialmente necessário, isto é, o total gasto em salários.

Mais-valia absoluta: uma das formas de aumentar a produtividade e reduzir custos para elevar o lucro se dá através da intensificação e prolongamento da jornada de trabalho, de um maior controle sobre os trabalhadores e da redução de descanso até a exaustão máxima de cada trabalhador. Ao invés dos 20 trabalhadores citados trabalharem 8 horas para receber 1000 reais, trabalham 16 horas para receber os mesmos 1000, reduzindo pela metade o total pago em salários e gerando um gasto de 120, ao invés de 240 mil. Desta forma, o empresário pode vender a casa pelos mesmos 300 mil e ampliar o lucro de 60 para 180 mil ou até reduzir o preço para 200 mil, lucrando ainda 80 mil (20 mil a mais) e se sobressaindo no mercado.

Mais-valia relativa: Ocorre que através da mais-valia absoluta, as condições de trabalho são absolutamente precarizadas e desumanizadas. Os trabalhadores pioram drasticamente o seu cotidiano, trabalham muito, ficam estressados e daí nascem as revoltas, protestos e greves. Foram muitas na história, certamente milhões, a partir da instauração do sistema capitalista. Em decorrência, legislações trabalhistas foram criadas, conquistas como o limite de 8 horas por dia de jornada, proibição do trabalho infantil, férias, descanso semanal remunerado, entre outros. Impulsionado a buscar mais produtividade, redução de custos e maior competitividade para aumentar o lucro, o empresário, ao passo que enfrenta forte resistência e revolta por parte dos trabalhadores ao tentar ampliar a exploração do trabalho através do prolongamento da jornada e da precarização das condições de trabalho, passa a utilizar outra forma de elevar o lucro: o incremento de máquinas e tecnologias cada vez mais avançadas para aumentar a velocidade de produção e substituir o próprio trabalhador, reduzindo assim o custo com salário e demais direitos trabalhistas conquistados. É desta maneira que o capitalismo torna-se um sistema no qual, em comparação com os anteriores, o desenvolvimento tecnológico ocorre de forma mais rápida.

Crise de superprodução: diante dessa dinâmica, o resultado histórico é um cenário econômico no qual a produção torna-se cada vez mais mecanizada e automatizada, o número de desempregados cresce (algo que Marx designou de ‘exército industrial de reserva’), o subemprego aumenta e uma crise estruturalmente se instala: de um lado, a produtividade cresce sem parar, produzindo cada vez mais mercadorias e em menor tempo. De outro, a quantidade de consumidores diminui, dado que o desemprego e o subemprego aumentam. Nasce então a crise de superprodução. A quantidade de produtos no mercado supera substancialmente a quantidade de pessoas comprando. Os lucros caem, dado que há excesso de produção. As empresas passam a reduzir a produção, demitindo trabalhadores e aumentando o desemprego ainda mais. Os ativos das empresas nas bolsas de valores se desvalorizam. Os governos arrecadam menos impostos e reduzem despesas sociais, precarizando os serviços públicos e demitindo servidores. Os empresários buscam reverter a queda dos lucros de várias formas: diminuindo custos de produção via demissões, redução de salários, transferência geográfica de empresas e investindo na automação do trabalho (vejam que contraditório), atacando as legislações trabalhistas, reivindicando junto aos governos a redução de impostos e transferindo os investimentos para outros mercados (o mercado financeiro atualmente é o mais comum). Dependendo do governo, políticas que visem reduzir custos e estimular investimentos podem ser tentadas, como a redução da taxa de juros. As guerras, em escala mundial ou localizada, principalmente por parte dos países ricos, também tornam-se uma ótima opção para aumentar o lucro e “resolver a crise”, pois permitem a reconstrução de outros países e o domínio comercial, gerando ótimos ganhos. Mas nada resolve a questão, sobretudo na conjuntura atual, pois trata-se de um fenômeno estrutural, inerente ao modo como funciona e se desenvolve historicamente o sistema capitalista. Como disse Marx: “O verdadeiro obstáculo à produção capitalista é o próprio capital”.

A solução dessas contradições só pode se dar por meio de um novo sistema econômico, onde a classe trabalhadora seja a verdadeira e legítima proprietária dos instrumentos de trabalho, das máquinas, das empresas e consequentemente se aproprie de todas as riquezas que produz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *