Lukács procura mostrar na ontologia do ser social que o trabalho é a categoria fundante do ser social, do ser humano enquanto humano, ou seja, procura mostrar que todas as determinações da sociedade surgem, direta ou indiretamente, do trabalho, e que o mundo dos homens (sociedade) é construído a partir deste. O intuito desse texto é mostrar como a gênese da ciência surge a partir do trabalho.

O primeiro ato do ser humano enquanto ser humano é seu intercâmbio com a natureza para encontrar meios de manter sua subsistência e para desenvolver esses meios (desenvolvimento das forças produtivas). Eis a razão de Marx afirmar no livro A Ideologia Alemã que antes da religião, cultura entre outras esferas da vida do homem, ele primeiramente precisa produzir e reproduzir a base material da sociedade de modo que mantenha sua subsistência e consiga ao mesmo tempo desenvolver a capacidade de produção, produzindo cada vez com mais eficiência:

”O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual.”

O trabalho funda o ser social e a ciência

É por isto que a medida que as forças produtivas se desenvolvem, vem a necessidade de um modo de produção com relações de produção mais sofisticadas do que as anteriores. Portanto, o trabalho é a categoria fundante do ser social, é o que faz ele ser, ontologicamente (qualitativamente no sentido de “ser”), distinto da esfera de organismo meramente biológico, da qual ele também pertence, mas como sendo algo precedente e menos complexo em relação ao ser social, seu ser posterior.

O homem realiza o trabalho de acordo com as necessidades e exigências individuais e da própria sociedade, fazendo isto com mediação da consciência, isto é, ele faz o seu intercâmbio com a natureza de uma forma consciente, diferentemente dos seres meramente biológicos. Sendo assim, é capaz de conhecer o âmbito qual vai transformar. O homem, para transformar determinado objeto, precisa ter um espelhamento correto desse objeto, ou seja, é necessário um certo conhecimento do sistema causal desse objeto para transformá-lo de acordo com a finalidade idealmente estabelecida pelo seu transformador. A necessidade de um grau maior ou menor de conhecimento varia de acordo com a finalidade de transformação, mas é basilar que o transformador conheça o que quer transformar.

Conhecer um objeto significa conhecer suas propriedades naturais para, posteriormente, reconhecer as possibilidades de transformação destas, bem como seus limites de transformação. Não se pode transformar um aglomerado de madeiras em um carro que funcione, por exemplo, uma vez que as propriedades naturais da madeira não permitem tal transformação, entretanto, a mesma pode ser transformada em uma lança. Por isso que há a necessidade de conhecer as propriedades naturais de um objeto, que são chamadas dentro do marxismo de “causalidade natural” que, após conhecida corretamente pelo sujeito de acordo com a finalidade do mesmo, passa de uma causalidade natural para uma causalidade posta, isto é, deixa de ser algo natural e passa a ser algo social, humanizado, uma vez que ao mesmo tempo que esse objeto é uma nova condição objetiva (existente independentemente do seu criador), só pode ter sido criado por uma ação do seu criador, e portanto no objeto estão  contidas as habilidades e conhecimentos exteriorizados para a realidade, mesmo o objeto existindo independentemente deste criador.

Até o momento, ficaram perceptíveis duas categorias que compõem o trabalho do ser social: Conhecimento e separação sujeito-objeto, onde o sujeito exerce uma função consciente e, tendo determinado conhecimento do objeto, o transforma de acordo com sua finalidade. Ficou claro que há uma ordem hierárquica de valor no processo de trabalho, onde nesta ordem a finalidade do homem é primazia em relação ao conhecimento, visto que, a princípio, o homem só conhece o objeto porque necessita desse conhecimento para transformá-lo de acordo com sua finalidade.

“Evidentemente, o trabalho não pode se realizar sem o mínimo de conhecimento da natureza. Portanto é importante esclarecer a ligação do trabalho com o pensamento científico e o seu desenvolvimento. O trabalho é condicionado pelo nível de conhecimento já adquirido e fixado socialmente. Ao mesmo tempo, a própria finalidade determina o critério da verdade, ou seja, em cada processo de trabalho concreto e individual, o fim domina e regula os meios”

Entretanto, essa finalidade posta pelo homem é algo passageiro, que serve apenas para satisfazer suas necessidades imediatas ou, em uma sociedade mais desenvolvida, para servir como um produto que o homem possa vender. Portanto a transformação do objeto satisfaz as necessidades e exigências do homem, mas que futuramente não servirá mais, já que aparecerão novas necessidades , o que exigirá novas ações do homem e novos conhecimentos. A partir disso, é que o processo do trabalho se desenvolve e essa ordem hierárquica de valor em seu interior se inverte, e o conhecimento passa a ser uma categoria mais importante do que a finalidade. Isto porque enquanto a finalidade satisfaz necessidades imediatas, o conhecimento vai muito mais além, e a partir dele o homem pode garantir resultados do trabalho realizados por esse conhecimento.  Devido a isso, o conhecimento é fixado socialmente e é conservado ao longo da história, e a medida que essa acumulação de conhecimento cresce devido a conservação de conhecimentos passados como forma de garantir resultados na realização do trabalho, o homem exerce um domínio maior sobre a natureza e sobre si mesmo, se afastando cada vez mais das barreiras naturais e do instinto irracional e animalesco. É a partir dessa perspectiva histórica que se desenvolve a ciência. A ciência representa, portanto, a forma mais correta que o homem encontrou, ao longo do desenvolvimento do seu conhecimento através do processo de trabalho, para desenvolver as forças produtivas, para conhecer os objetos e a si mesmo. Vale ressaltar que a ciência não se limita mais apenas em conhecer o objeto para transformá-lo, mas também em conhecer a verdade do mundo partindo do próprio mundo, rechaçando concepções místicas e idealistas.

“Como a pesquisa da natureza está concentrada na preparação dos meios, são estes a garantia social da conservação dos resultados do trabalho, que são fixados e possibilitam um desenvolvimento continuado. Daí Lukács sugerir que a gênese da ciência está ligada à investigação dos meios, e que esta, ao se constituir como uma esfera autônoma específica, tem a busca da verdade como finalidade, distanciando-se em grande medida das finalidades particulares dos processos de trabalho imediatos.”

Seria impossível o desenvolvimento do ser humano e da sociedade sem que houvesse essa acumulação de conhecimento que, em determinado período da história, se torna ciência, visto que a medida que o conhecimento é acumulado e fixado socialmente, o homem conhece cada vez mais a realidade em si e portanto pode transforma-la de forma cada vez mais complexa e rápida, obtendo assim um domínio cada vez maior sobre a natureza e, consequentemente, produzindo e reproduzindo a base material da sociedade mais eficientemente.

Referências:

MARX E ENGELS- IDEOLOGIA ALEMÃ

MÁRIO DUAYER, MARIA FERNANDA E ANDREIA VIEIRA – A ONTOLOGIA DE LUKÁCS E A RESTAURAÇÃO DA CRÍTICA ONTOLÓGICA EM MARX

LUKÁCS – PARA UMA ONTOLOGIA DO SER SOCIAL 2

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